Entrevista: Fabio Maca

21 de junho de 2021

Hoje é o tão aguardado lançamento de Tarja branca, de Fabio Maca. E conversamos com ele para saber mais sobre o livro. Confira abaixo. 

 

1) Antes de começarmos, gostaria que contasse um pouquinho mais sobre você para nossos leitores.

 

Pergunta difícil, sempre. rs. Hoje sou várias coisas, dentre elas calígrafo e, agora, começando a me acostumar com ‘escritor’. Sempre escrevi, tive uma paixão adolescente pelas palavras, foi um amor platônico e a escrita me ajudou a lidar com meus próprios amores platônicos. Era uma escrita natural, com determinadas ideias roubadas de Borges e Pessoa, principalmente — e talvez por esses pequenos delitos, nunca tenha me achado digno de uma carreira literária. Mas se por um lado eu não assumia a escrita, por outro, ela não deixava barato, tendo sido fundamental na minha carreira de redator publicitário, profissão que exerci por 15 anos. Depois, a escrita veio com força na minha vida numa onda artística, com a caligrafia, meu principal ofício há 8 anos. Como você vê, sempre estive às voltas com o ato de escrever, me mantive perto das letras, mas só agora resolvi assumir esse relacionamento. No momento, com o lançamento do Tarja branca, diria que finalmente pedi a escrita em casamento. Me parece que ela aceitou.

 

2) Antes de Tarja branca você lançou um livro de poesia em parceria com Lucão. Como foi a experiência?

 

Se o Tarja banca foi o casamento, com certeza o Dois Avessos foi meu primeiro namoro sério. Como você mencionou, é um livro de poemas em parceria com o amigo Lucão, que mais que um parceiro de escrita, foi também meu grande incentivador. O livro nasceu quando ele, numa visita casual, se pôs a vasculhar meus diários antigos, tirando de lá muito do que foi editado e impresso. O Dois Avessos parte da nossa diferença natural no campo da poética – eu escrevendo de uma forma mais visceral e dolorida, eu cheio de hematomas e o Lucão mantendo o amor uma oitava acima.

 

3) De onde surgiu a ideia para escrever Tarja branca?

 

Mark Twain disse algo como “os dois dias mais importantes da sua vida são aquele em que você nasce e aquele em que você descobre o porquê”. Bem, ainda não descobri esse meu porquê. rs. Mas perseguí-lo é algo que me deu sentido. Sei que não sei e, através dessa consciência, me tornei muito curioso sobre questões de identidade e busca de sentido, um interessados em angústias, dores em comum, bem como nossos processos para sair destes estados que no livro chamo genericamente de “nevoeiros”. Essa busca me levou para psicoterapias, filosofia, formações em coach e xamanismo, experiências com ayahuasca, umbanda, tarô.

 

O Tarja branca surge como a necessidade de dividir o que descobri. Bem, não que o livro contenha o segredo da vida. rs. Mas depois de tantos anos acumulando, senti que era hora de devolver algo, criar pontes com pessoas que pudessem estar sentindo coisas parecidas. Digo isso porque o livro não é biográfico, mas é claro que nele há muito das minhas más escolhas em relacionamentos e em trabalho, da minha incompreensão do mundo, de uma certa inabilidade para ser feliz.

 

Não é à toa que o livro tem esse nome e essa atmosfera de compêndio medicinal. Foi assim que quis escrevê-lo: como uma medicina. O único ponto que talvez me arrependa sobre o Tarja branca é que, como um pesquisador abnegado, quis sentir todos os males descritos na pele e não pela observação de cobaias. rs.

 

4) Estamos vivendo em tempos muito complicados, seu livro traz uma leveza e um tom de esperança para os leitores. Como foi o processo de escrita dele?

 

Foi uma surpresa. O Tarja branca marca um estilo inesperado para mim. Foi a primeira vez que consegui dar nomes universais a sentimentos muito particulares, a histórias que não tiveram fim, feridas abertas. No Tarja, sinto que elas não são mais minhas, mas de todos nós.

 

E isso se deu de uma maneira leve. Considero o teor do livro intenso e procurei balanceá-lo numa escrita leve e até divertida em alguns momentos. Um toque cínico aqui, uma alfinetada mais franca acolá e pronto. E, sim, há um quê de esperança. Em todo o livro me preocupei de não só achar onde dói, mas também de ter uma palavra de amparo para aqueles que percebem que estão sofrendo de determinado mal da Alma.

 

5) Podemos esperar mais surpresas do Fabio Maca escritor?

 

Mas isso sem dúvida. Tenho algumas ideias nas quais já comecei a trabalhar, como o “Respostas indesejáveis para questões sem futuro”, um tipo de oráculo cínico que espera, através das suas respostas, que as pessoas parem de depender de oráculos. rs. Monto o livro através de um serie de respostas meio poéticas, meio proféticas sobre questões tão simples quanto desconcertantes, como “o que te fez sair da cama hoje?”, “quem você seria se tivesse a coragem de ser você?” e outras ainda mais impertinentes. rs.

 

Além disso, eu e o Lucão estamos trabalhando na continuação do Dois Avessos, o Avessos Dois. Ele é um tipo de FAQ poético, onde pergunto algo para o Lucão em forma de poesia e ele me responde também com um poema, para depois invertemos os papéis. Além disso, há um outro projeto muito especial, um livro de fábulas para adultos, no qual ao invés de histórias de ninar, quero contar histórias de despertar.

 

Seja como for, meu trabalho hoje está ligado a esta investigação de si, a uma jornada em busca de identidade e essência, de sentido, onde procuro provocar o leitor sobre a vida, se descuidamos, nos vivem ao invés de sermos nós a vivê-la.

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