Entrevista: Vic Vieira

03 de agosto de 2021

Conversamos com Vic Vieira, tradutor de Felix para sempre. Confira abaixo. 

 

1) Antes de começarmos, por favor, conte um pouco sobre você e seu trabalho para nossos leitores. 

 

Sou escritor de ficção especulativa desde moleque e publicado desde o fim da adolescência. Apaixonado por ficção weird & new weird, pelo gótico e por cyberpunk. Amante de criaturas, monstros e entidades ocultas. Tenho 30 anos, sou natural de Niterói, no estado do Rio de Janeiro, e atualmente moro em São Paulo. Tive uma trajetória meio incomum até a tradução. Estudei alguns anos na UFRJ em três graduações diferentes. Fui da biologia para a educação artística e, por fim, para a pintura. Por diversos motivos pessoais, não concluí nenhuma das três graduações. Os anos seguintes foram conturbados e experimentei uma série de cursos livres das mais diferentes disciplinas, tanto pelo gosto do aprendizado quanto pela vontade de encontrar o que serviria aos meus propósitos. Eu já trabalhava com literatura, mas demorou até isso se tornar um caminho viável. Em 2019 entrei no Programa Formativo para Tradutores Literários da Casa Guilherme de Almeida, ávido não só por aprimorar meus processos tradutórios com as oficinas práticas, mas também por mergulhar no estudo teórico. Nunca havia sido um plano me dedicar à tradução literária. Quando jovem estudante de biologia, achava que seria paleontólogo. Mas a vida sempre me sacudiu e me fez tomar rumos inesperados. Hoje em dia, além de escrever e desenhar, trabalho com tradução, versão, preparação e revisão.

 

2) Como foi a sua experiência de tradução em Felix para sempre?

 

Foi uma delícia! O processo de tradução literária é sempre muito prazeroso. Alguns tradutores preferem ler o livro inteiro antes de traduzir (quando há tempo para isso). Eu vou lendo enquanto traduzo, então vou me emocionando e me indignando com os personagens ao longo do trabalho. Às vezes solto uns “mas não é possível que fulano fez/disse isso!” e preciso dar uma pausa e ir conversar com amigos sem dar spoiler, haha!

 

O texto de Kacen é envolvente, puxa a atenção para aquele mundo, aqueles conflitos. A narrativa de Felix foi muito bem construída para nos absorver, nos fazer sentir a angústia, o nervosismo, a insegurança desse personagem e despertar uma vontade de querer sacudi-lo pelos ombros e dizer umas verdades para logo depois abraçá-lo e oferecer refúgio. Também me identifiquei um bocado com algumas experiências. Os questionamentos sobre se sentir incerto de suas próprias identidades, querer ser amado e isso parecer inalcançável, a sensação de estar deslocado da realidade, à parte e isolado enquanto a vida passa adoidada para os outros, a busca pela expressão de desejos e vontades por meio da arte, querendo se retratar de dentro para fora com pinceladas e explosões de cores. São todas experiências pelas quais já passei de alguma forma. É inevitável que o processo de tradução tenha um peso emocional diferente quando me deparo com um livro assim. Na mesma época também estava traduzindo uma obra de não-ficção sobre história econômica e, apesar de dedicar o mesmo cuidado a ambos, a tradução do romance foi uma experiência muito mais recompensadora.

 

3) O autor Kacen Callender utiliza bastante linguagem coloquial e neutra. Como se deram as suas escolhas na tradução?

 

É sempre uma preocupação acertar o registro coloquial e saber manobrar as gírias e os palavrões para o texto não sair com cara de how do you do, fellow kids. Principalmente num romance YA. Mas também é muito divertido! A narrativa, os diálogos, as trocas de mensagens, todas essas vozes são muito autênticas. Eu me ancorei nessa base de manter a sinceridade, a honestidade emocional do que estava sendo dito, como estava sendo dito, e qual era a intenção daquela fala que eu precisava preservar e transmitir ao traduzir. Também é sempre bom lembrar que o importante trabalho de preparação (feito pela Bruna Miranda nesse livro) ajuda a aparar as arestas da tradução. Então o resultado é um esforço coletivo.

 

No original, o autor usa o pronome they no singular para se referir a ume personagem não-binário e, na tradução, optamos pelo pronome elu. É o que vem sendo mais utilizado em traduções recentes. Pode parecer algo pequeno, mas até alguns anos atrás ainda existia uma resistência das editoras em adotar essa linguagem. Então é um passo adiante. Há uma aura de legitimação quando algo assim sai publicado no livro de uma editora reconhecida. Podemos questionar quais publicações são consideradas relevantes para o discurso hegemônico (afinal, a presença de autores e personagens trans e suas linguagens diversas e experimentações literárias já existe há um bom tempo em espaços menores e/ou independentes). Mas além de construir nossos próprios espaços e redes de apoio interdependentes, a luta ainda se dá em campos mais amplos, econômicos e de classe, portanto a luta também se faz ocupando espaços que nos eram negados.

 

Eu também trabalho com leitura sensível para grandes editoras e tem sido muito bom acompanhar essas mudanças positivas e ver o uso de pronomes diferentes se consolidando. Falo publicamente de diversidade e inclusão na literatura há algum tempo. Em 2011 já estava participando de eventos sobre o assunto no meio da ficção especulativa. Na época, ainda lidava com bastante preconceito por ser abertamente queer e isso ser explícito também na minha ficção. Em 2015, eu e o autor Jim Anotsu escrevemos em colaboração o Manifesto Irradiativo, um chamado por representação e inclusão na ficção especulativa brasileira, não só do lado de autores, mas em todas as etapas do mercado editorial. Rendeu boas discussões e até evento em uma biblioteca pública de São Paulo que reuniu um bocado de gente querida e nos encheu de esperança e força. Tanta coisa já mudou nesse meio tempo, tantas transformações boas, tantos retrocessos inimagináveis. A luta continua. Costumo dizer que estou cansado de tudo, mas também sou incansável em meus esforços. Trabalhar em livros como Felix para sempre ao lado de pessoas queridas e competentes me confirma de que estou no caminho certo.

 

4) O livro traz o autodescobrimento de uma pessoa trans, suas dúvidas e receios. Você acha que foi uma boa representação desse processo? 

 

Sim! É um relato honesto, com todas as inseguranças, confusões, reviravoltas e os sentimentos de inadequação, deslocamento e alienação das pessoas ao redor. Felix narra com muita clareza os seus medos e angústias quanto ao próprio gênero, o desejo de ser amado e a dor de não sentir que isso está ao seu alcance, a mágoa de ter sido abandonado e as feridas abertas que um evento desses deixa na gente. Entramos na cabeça dele num mergulho profundo do começo ao fim. Gosto de ver histórias direcionadas ao público jovem que retratam esses questionamentos e desvios, que não fogem das indecisões e das mudanças de entendimento quanto à própria identidade, que se permitem a fluidez, as imperfeições, os erros. Mas que também povoam a narrativa com perspectivas diferentes, apresentam contrapontos, localizam os discursos dos personagens sem tentar ditar uma moral. É importante lembrar que não existe um único tipo ideal de representação. As experiências de autodescobrimento de quem se percebe desviante das normas cisgênero são plurais. Atravessadas por uma série de outras condições, algumas delas também retratadas no livro, como raça e classe. E a sexualidade é esse líquido viscoso, ou um sólido amorfo, que vai se transmutando e se acomodando às pressões dos desejos conforme surgem novos entendimentos, novas trocas afetivas.

 

Outro dia estava conversando com um amiga sobre essas narrativas e brinquei que a minha própria jornada seria uma loucura (provavelmente cancelada) se fosse retratada num bildungsroman para jovens. Imagine, uma garota que saiu do armário muito cedo como bissexual, depois se entendeu lésbica, depois voltou a se entender bissexual, então pansexual, então apenas queer, então no começo da vida adulta percebeu que não era mulher coisa nenhuma, se identificou como gênero fluido, transitou para uma expressão mais transmasculina, talvez demirapaz, decidiu-se por se dizer não-binário, talvez esteja se afeiçoando mais ao termo agênero, e agora aos trinta anos se deu conta de que pertence aos espectros assexual e arromântico e a única linha de coerência que amarra toda essa jornada é que eu sempre fui kinky, então somente o âmago da perversão me constitui, haha! Minhas experiências de vida foram radicalmente diferentes em cada um desses períodos. Mas todos esses termos me descrevem apenas em parte. São úteis para me localizar e me posicionar na sociedade. Mas me entendo melhor como dissidente do sistema sexo-gênero, como diria Preciado. E muitos jovens estão se questionando a partir das mesmas inquietações, uma ambivalência entre o sentimento de acolhimento e pertencimento ao se ver parte de uma comunidade e o incômodo com a insuficiência de definições que partem de um sistema que está ruindo aos poucos. Parte dessa discussão está presente em Felix para sempre e com a importante inclusão de gente trans de gerações distintas na mesma roda de conversa. Os personagens discutem a necessidade de rótulos, defendem sua importância, lembram da história de luta que os precedeu, assumem suas contradições. E toda a intensidade própria da adolescência conduz essa narrativa num ritmo que nos deixa sentir a urgência desses assuntos para Felix.

 

5) O livro traz algumas diferenças claras da realidade brasileira. Como você acha que esse livro dialoga com nossos leitores? 

 

Os leitores reconhecerão não apenas os conflitos pessoais de Felix, mas todo o contexto de abismo entre classes e as consequências dessa disparidade socioeconômica na subjetividade dos personagens. Todas as preocupações artísticas e de gênero de Felix são perpassadas pela condição financeira na qual ele vive e a amizade com alguém que é praticamente de outro mundo nesse aspecto. A preocupação com o futuro, se é que haverá um futuro viável que se encaixa em suas vontades, com certeza é algo mais do que presente também em nossas inquietações. As questões de raça, gênero e sexualidade vão soar muito familiares, mesmo com as diferenças históricas entre os dois países. Mas como por aqui também temos o hábito de importar discursos e teorias norte-americanos, a linguagem utilizada pelos personagens em suas discussões e questionamentos são conhecidos. É um livro bem atual e, ao ler o blog de Kacen, vi que o autor tem mesmo um conhecimento sensível muito apurado de todos esses assuntos e como eles são abordados e disputados em espaços adolescentes e na web.

Muito obrigada, Vic!

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